Há histórias que não terminam, apenas mudam de forma. Neste domingo (05/07/2026), o Distrito Federal se despediu fisicamente de Rivas Alves, conhecido como Rivas Álibi, aos 56 anos. Pioneiro e um dos verdadeiros arquitetos da nossa cultura Hip Hop, sua partida ocorreu após uma breve e intensa luta contra o câncer.
Rivas viveu o Hip Hop em sua totalidade. Desde os anos 1980, quando a cena ainda dava seus primeiros passos, ele já estava nos bailes de black music, pavimentando o caminho. Multidisciplinar, expressou sua genialidade como B-boy, grafiteiro, MC e até DJ. Ao lado de seu irmão, o lendário DJ Jamaika, que também nos deixou, em 2023, Rivas moldou a identidade do que o Brasil viria a respeitar, como o Estilo Rap do DF.
Não precisamos ir longe para comprovar essa grandeza. O post de despedida publicado pelo perfil oficial @rivasalibi no Instagram já ultrapassa a marca de 26,5 mil curtidas, 4,8 mil comentários e quase 10 mil compartilhamentos, números que, por si só, dizem muito sobre o tamanho do que Rivas representou para a cultura do DF e do Brasil. De fãs anônimos a nomes que constroem, lado a lado com Rivas, a história do Rap no Distrito Federal, reunimos aqui algumas dessas vozes, porque acreditamos que a memória de um mestre também se escreve com as palavras de quem foi tocado por ele.
E é logo ali, entre os primeiros comentários, que se encontra a origem de um apelido que resume bem quem ele foi nas ruas e nos palcos, o Lobo do Asfalto:
“Descanse em paz, grande Lobo do asfalto.”
@leosaraivavip

“Nunca vi ele triste”: o homem por trás da lenda
Antes do artista, havia um homem de sorriso fácil e coração generoso — e é isso que mais se repete entre quem conviveu com ele. Do coletivo Pacificadores, que acompanhou Rivas de perto por décadas, veio um dos relatos mais bonitos desse período:
“Conhecia o Rivas desde 2005 e eu nunca vi ele triste, sempre com um sorriso gigante, que Deus conforte o coração da família.”
@neguim_pacificadores
“Esse sim era pura alegria, que Deus lhe receba em festa e conforte o coração de todos os familiares.”
@pacificadores
Quem cruzou seu caminho, mesmo que por um instante, guarda a mesma lembrança. É o caso de Nattx Oliveira, que resumiu em uma frase o efeito que Rivas tinha sobre as pessoas:
“Rivas é daquelas pessoas que acolhem e aquecem o coração. Satisfação poder ter as vidas cruzadas.”
@nattxoliveira

O mestre de cerimônias que nunca será substituído
Dentro da cena, Rivas era reconhecido como uma referência técnica e uma presença insubstituível nos palcos e nas batalhas. Duck Jay Real, um dos nomes do Hip Hop brasiliense, foi direto ao ponto:
“Rivas, nosso eterno e insubstituível mestre de cerimônias. Nunca será esquecido, meu amigo… descanse em paz, grande mestre, muito obrigado.”
@duckjayreal
O Rap DF Oficial e a Rap Brasília — páginas que documentam o dia a dia da cena local — reforçaram o mesmo sentimento de gratidão coletiva:
“Descanse em paz irmão, mestre eterno do RAP DF, obrigado por tudo, irmão!”
@rapdfoficial
“Descanse em paz, Mestre Rivas Álibi. Sua arte, sua fé e sua história jamais serão esquecidas. Obrigado por tudo que representou para o rap e para a cultura do DF. Seu legado vive.”
@rapbrasilia

Já a Tribo da Periferia, um dos grupos mais conhecidos da cidade, deixou seu recado:
“Descanse em paz, mestre Rivas! Nossos sentimentos a toda a família.”
@tribodaperiferia
E, entre os próprios MCs, a homenagem do rapper Mano Fler resumiu o tamanho de Rivas dentro da cena
“Salve, um verdadeiro homem rapper.”
@mano_fler
Uma trilha sonora para o breaking, uma escola para a quebrada
Poucos discos marcaram tanto a cena de dança do DF quanto o álbum Kabala, apelido que, aliás, também virou sinônimo do próprio Rivas entre os mais antigos. O b-boy Robson, que começou a dançar ao som dessas faixas, descreveu com precisão o tamanho desse legado:
“Comecei a dançar Breaking ao som de suas músicas, especialmente do álbum Kabala, cujas faixas sempre transmitiram mensagens de paz, amor e respeito para a quebrada. Obrigado por tudo, Rivas. Seu legado permanecerá vivo por meio da música, da cultura e de todos que foram inspirados por você.”
@b.boyrobson

Na mesma linha, o veterano Voz Sem Medo, que acompanha Rivas desde 1990, fez questão de lembrar o tamanho da perda para o Rap nascido no Planalto Central:
“Uma sequência de mortes prematuras que afetam diretamente o rap nacional, em especial o rap de qualidade feito pelos ícones nascidos no Distrito Federal. Vamos esquecer nossas pequenas diferenças e nos unir. A vida é um sopro. Descanse em paz, Rivas/Kabala. Com você desde 1990.”
@vozsemmedo
O educador que ensinava ouvindo
Rivas não formou apenas plateia, formou gente. É o que testemunha Edilson Barbosa:
“Um ser humano que me ensinou muito sobre a cultura hip hop. Caminhamos juntos por um bom tempo.”
@edilsonbarbosaadvogado
E há relatos ainda mais profundos sobre o alcance social de seu trabalho, como o de um seguidor que atravessou a linha tênue entre a criminalidade e a arte, e encontrou no Rap de Brasília, com Rivas entre seus mestres, um caminho de transformação:
“Eu vi isso acontecer muito no crime: um parceiro ir e depois o amigo morrer. No rap é a mesma coisa, um puxa o outro. Comecei no crime na época de 90, e o som de Brasília me ensinou a não errar. Hoje, com 42 anos, tô trabalhando nesse exato momento. O rap salva e nos ensina.”
@natosilva.commmmm
É exatamente essa a essência da verdadeira educação popular que o Hip Hop carrega: o trabalho social começa na escuta, o ato de ouvir a rua, de entender suas dores e potências, transformando a vivência em alicerce. O papel do educador, como Rivas bem exerceu, é a responsabilidade da fala: construir a ponte que traduz a sabedoria da comunidade em arte, em evolução e em legado para os que virão.

Para Além do Distrito Federal: Um Impacto que Ecoou pelo Brasil
O alcance de Rivas ultrapassou as fronteiras de Brasília. Do Pará, o Mestre Marcos Hayden, do Movimento Hip Hop Organizado, relembrou a visita de Rivas à celebração dos 25 anos do movimento paraense, levando a Seletiva Battle Brasil até Belém:
“Descansa em paz, meu amigo. Muito obrigado por tudo. Gratidão por ter vindo a Belém na celebração dos 25 anos do Movimento Hip Hop Organizado do Pará, trazendo a Seletiva Battle Brasil, realizada no Mercado de São Brás.”
@mestremarcoshayden
Uma comoção que reverberou por toda a cena
O Atitude Feminina, pilar fundamental do protagonismo das mulheres no Hip Hop, demonstrou sua imensa gratidão ao pioneiro:
“Que Deus conforte o coração de todos os familiares, obrigada por tudo que fez pelo hip hop e pelo Atitude Feminina.”
@atitudefemininaoficial
Do universo da música e do entretenimento, Belladona compartilhou a dor de quem perdeu, ao mesmo tempo, um amigo e uma referência de carreira:
“Estou arrasada, queria tanto que não fosse real. Perdi um amigo e o cara que foi referência na minha carreira, devo muito ao Álibi.”
@belladona_official
Vozes como as de Renan Inquérito, Ndeenaldinho e Rafuagi, nomes ativos e respeitados no cenário musical, também se somaram ao coro de despedida:
“Meus profundos sentimentos a toda família, descanse em paz mestre.”
@renaninquerito
“Que Deus o receba de braços abertos, meus sinceros pêsames aos fãs, amigos e a família.”
@ndeenaldinho
“Que tristeza. Meus sentimentos a toda família e amigos do DF e do país inteiro. Deus conforte os corações. Sinto muito! Deus receba o querido Rivas num bom lugar que merece o mestre.”
@rafuagi

A influência de Rivas também se estendeu ao cenário político. O deputado distrital Max Maciel, voz atuante nas pautas de juventude e periferia no DF, publicou sua homenagem:
“Quero deixar meus sentimentos a todos os amigos e familiares. Inacreditável! Que Deus conforte o coração de todas e todos!”
@maxmacieldf
E Leila do Vôlei, referência do esporte brasiliense, reforçou o quanto o legado de Rivas ultrapassou os limites da música:
“Muito, muito triste com sua partida, amigo. Obrigada por todo o legado que você deixa para o movimento Hip-hop e toda a cultura do DF e do Brasil! Sentiremos sua falta.”
@leiladovolei
Um guardião da nossa memória
Para nós, do Acervo Distrito Hip Hop, a partida de Rivas é a perda de um guardião ativo da nossa memória. Ele nunca foi uma lenda distante; era um parceiro de trincheira. Seu compromisso em formar, registrar e lutar pelo Hip Hop ficou ainda mais potente nos últimos anos: foi fundador e gestor da Casa do Hip Hop da Ceilândia, um polo vital de resistência, e comandava o Rap Total Podcast ao lado do parceiro Rei, onde documentava incansavelmente a cena musical de Brasília.
📺 Canal oficial do Rap Total Podcast no YouTube: youtube.com/@RapTotalPodcast
Se hoje a nossa cultura é uma potência que reúne milhares de jovens em todas as regiões, é porque pioneiros como ele prepararam o terreno. O legado de Rivas serve como um guia fundamental para o nosso trabalho de acervo e preservação, demonstrando claramente que fazer e documentar a memória das ruas é a nossa maior ferramenta de sobrevivência.
Desejamos muita força à família, aos amigos e a toda a comunidade. Que o reencontro com Jamaika seja de muita festa no andar de cima. Rivas será sempre eterno, e que seja inspiração em cada movimento, em cada rima, em cada traço e em cada batida que ecoar na nossa cidade.
O Acervo Distrito Hip Hop seguirá fazendo o que você nos ensinou, mestre: mantendo a nossa história viva.
Descanse em paz, Rivas.